sábado, 23 de janeiro de 2010

Quando Coisas Reais Acontecem a Pessoas Imaginárias – Resenha Crítica do filme Avatar



A maioria das minhas matérias está, pode se dizer, atrasada: a última postada foi sobre um anime que já terminou há alguns anos, e a primeira foi sobre um clássico. Achei bom escrever sobre algo atual. Então, aqui está, aproveitando o sucesso que ainda está nos cinemas (até onde eu saiba), uma matéria sobre o filme Avatar, de James Cameron.
Fui assistí-lo alguns dias depois do Natal, aproveitando o embalo dos meus tios e primos, que me levaram. Saí do cinema falando um monte do filme (eu não xingei, mas não elogio), e meus pais tiveram de ouvir ainda mais quando cheguei em casa.
Não, não foi um filme ruim. Para os padrões norte-americanos (e brasileiros), foi um filme bom. Mas para os meus padrões... Digamos que não indico o filme a ninguém. Acontece que eu não vejo filmes como a maioria das pessoas. Não assisto por causa de efeitos especiais (só vi em 3D porque os meus primos não queriam ver de outra maneira), nem esperando muito da história caso se trate de filmes norte-americanos.
Eu assisto um filme (leio um livro ou HQ, ouço musica, etc) em três níveis:
1- Mensagem (o que os criadores quiseram dizer com aquilo)
2- Enredo
3- Enfeites (leia “efeitos especiais e tudo o mais que não tem nada a ver com a história” ou ainda “pura arte, sem valor prático, mas não sem importância”)
Quero dizer, se a idéia original é boa, então já está cerca de 60% aprovado por mim. Se a história for boa, ótimo, é provável que um dia eu queira rever. E efeitos especiais não importam nada para mim por que não tem a mínima relevância para a história e eu não me interesso por esse tipo de arte.
O problema com Avatar é que a Mensagem e o Enredo entraram em crise, e aquela foi subordinada a esta. Avatar é uma alegoria falha. Mas, para explicar o porquê, terei de contar a história, inclusive o final. A partir de agora, se você não quer ler spoilers, sugiro que deixe para ler esta matéria depois de ver o filme.
A história começa com uma expedição espacial chegando ao seu destino: um planeta chamado Pandora, rica em um elemento inexistente na Terra, mas muito útil para os humanos. No planeta há existências de forma humanóide chamadas Navi (aqueles monstros azuis de três metros que você já deve conhecer se viu algo sobre o filme). Todas as criaturas desse planeta possuem um forte vínculo uns com os outros: por meio de uma espécie de cabo que todos têm em seus corpos, eles podem ligar seus cérebros uns aos outros, para transmitir informações, sensações, ordens (para adestração), e outras possibilidades.
A idéia de Avatar é que, para negociar com os Navi o tal elemento, os negociadores humanos passarão suas mentes para um corpo de navi criado artificialmente. O nome dos corpos? Avatares. Vá entender... “Avatar” é o nome da encarnação do deus hindu Vishnu, que veio à Terra várias vezes para, de forma geral, fazer o bem e punir os maus, segundo a crença.
A história então é uma alegoria da luta entre a nossa sociedade tecnológica contra as sociedades indígenas. Os navi são claras representações dos índios. Mas, claro, sendo os navi os protagonistas do filme, e sendo uma produção norte-americana, o final é óbvio: na luta, os navi vencem. O filme tem de agradar o grande público, e o que o agrada é um final feliz, mesmo que contrarie a realidade.
Não falo que o filme seja bom porque os navi venceram no final. Minha tia falou que é assim que tem de ser, que a natureza tem de vencer, que as histórias têm de transmitir boas mensagens. E ela está certa nesses dois últimos pontos, mas é inegável a incoerência: não foi assim que aconteceu.
Os índios infelizmente perderam as batalhas. Os mais próximos da natureza falharam. O filme então é uma enganação. Sim, a natureza tem de vencer, e vai vencer, eu acredito, mas de outra maneira, porque, desta, com os índios, já falhou. É uma besteira recriar esse conflito e dar um novo final, um feliz. Isso é enganar, é dar ao grande público o que ele quer (uma mentira que os faça sentir bem), não o que ele precisa (sentir a dura realidade, mas que os faça impedir que esses erros sejam repetidos). O filme é uma Alegoria Falha.
Ainda mais incoerente é o fato que, para dar mais emoção ao filme (e estragar ainda mais a idéia), quando os navi começam a perder, eles recebem ajuda dos demais habitantes do planeta, os animais. Animais não de juntam para lutar contra adversários tão assustadores, eles fogem quando pressentem o perigo.
Quanto ao caso da Natureza vencer, só estarei satisfeito quando vir uma Alegoria da Fênix: uma história que mostre a sociedade tal como ela é, sendo corrupta, hipócrita, ignorante; mostrará, então, ela ruindo, queimando-se por causa de si mesma, dos seus erros; e a Natureza avançando, dominado, retomando o que é dela por direito, como o fogo se alastrando no corpo da velha fênix, para que, das cinzas desse mundo doente, renasça uma vida melhor.

4 comentários:

  1. É, fiquei pensando também, se fosse na vida real, não iriam ganhar nunca.
    Em quase todo filme de ficção ou desenho lá, o 'bem' sempre ganha por um fio de cabelo, um milagre, algo assim, algo que nao aconteceria na vida real.
    Mas essa é a intenção, mostrar o irreal, não teria graça se o final fosse triste, esse filme nao passa imagem nenhuma ( na minha opniao) é um filme para diversão, e não para crescimento pessoal, então as pessoas buscam no sonho, imaginação, as coisas que não podem ser na vida real, no caso os índios nunca ganhariam na vida real, mas vendo o filme todo mundo quer que vença, então, seria um filme voltado a diversão e não ao intelecto.
    Bem, do que vale a dura realidade sendo que voce pode viver o seu própio mundo fantástico?

    Essa é minha opnião, hehe, add no msn para conversarmos mais :)
    pedro.brentam@hotmail.com

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  2. Os filmes não são feitos para mostrar a realidade, alguém sabe algum que mostre fatos que não possam ser contestados quanto a realidade ? Tem aqueles baseados em vidas reais, até mesmos estes tem exageros voltados ao entreterimento do público. Avatar é apenas mais um para esse tal entreterimento (ganhar dinheiro). !

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  3. "alguém sabe algum que mostre fatos que não possam ser contestados quanto a realidade ?" "Laranja Mecanica", "O Clube do Imperador" e a antiga série de TV "Familia Dinossauros", considero como ótimos exemplos de histórias para o TV e cinema que divertem sem perder o realismo e senso crítico.
    "A Vida é Bela" é um pouco fantasioso, talvez, mas acho igualmente valido.
    Mídias tem o dever de mostrar a realidade. Um pouco de entretenimento puro não mata, eu sei, mas iludir é outra história.

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  4. Hoje eu ví um filme lindissimo chamado "Crash- no limite", que trata dos preconceitos da sociedade norte-americana pós 11 de setembro. Ganhou os Oscars de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Montagem, em 2005. Recomendo, lindo, forte, crítico e realista.

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