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“Bem vindo para mim é meu sono, e ainda mais se de pedra, enquanto o erro e a vergonha ficam. Não ver, não sentir, grande sorte para mim. Porém, não me desperte. Silêncio! Fale Baixo!”
- Michelangelo
Essa é a primeira parte da matéria sobre o anime Ergo Proxy. Nesses posts estarei dissecando e analisando essa sombria e futurista ficção-científica rica em filosofia e psicologia.
Na primeira parte quero falar sobre o mundo onde acontece a história, suas metáforas sobre o nosso mundo e suas várias alegorias a si mesmo. Mas antes, você precisa conhecer a história, não é mesmo? Ela acontece em uma gigantesca cúpula chamada Rondo que abriga toda a sua nação. Ela foi construída para que os humanos pudessem sobreviver enquanto a Terra se regenera e volta a ser habitável. Mas muitos anos (talvez milênios) já se passaram entre a construção do domo e o início da história. Os humanos vivem muito bem dentro dela, com uma febre consumista pior que a nossa (as ruas estão cheias de monitores transmitindo mensagens de incentivo às compras e à uma “vida melhor”), e desfrutam de alta tecnologia, convivendo com robôs.
Mas as máquinas são alvo de uma espécie de vírus chamado “Cogito”, que lhes da alma/livre-arbítrio. Vírus este que tem origem em uma existência ( humano? robô? deus? monstro?) chamado Proxy.
Se a célebre frase de René Descartes, “cogito, ergo sum” (penso, logo existo) fosse “cogito, ergo proxy”, significaria “penso, logo crio”. E o anime brinca bastante com isso: sua frase famosa é “penso, logo VOCÊ existe”; e há até uma parte que acontece um culto, e as pessoas oram: “pensamos, logo Deus existe; Ele pensa, logo nós existimos”. Com isso já é possível perceber um pouco a profundidade da história.
O protagonista, Vincent Law, é um imigrante vindo do Domo de Moscou, que se empenha em se tornar um bom cidadão. Mas, por causa de muitas coisas que ele não entende, ele se convence de que não pode alcançar seu objetivo. Vendo que não há lugar para ele em Romdo, Vincent foge, acompanhado de Pino, uma robô infectada com o cogito, que age como uma criança.
Atacada por um proxy, Re-l (Real) Meyer (uma agente de governo e neta de Donov Meyer, o responsável por Rondo) tem sua sanidade desacreditada, e passa a caçar o “monstro” para provar que não está louca. Acreditando que Vincent tem alguma ligação com os proxys, ela o segue até mesmo fora do domo para descobrir mais sobre essas estranhas existências, que, por algum motivo, o governo quer esconder.
Vincent, Pino e Re-l formam o núcleo que protagoniza a série, viajando pelo mundo para descobrir mais sobre os proxys. Nessas viagens, eles passam por uma série de outros domos que, de uma forma ou de outra, são metáforas de Rondo, que por sua vez é uma alegoria ao nosso mundo. Cada domo visitado é uma característica de Rondo. E é disso que quero tratar nesse post.
Tenha em mente que Rondo é o nosso mundo: a vida dos cidadãos é fortemente influenciada pela mídia; consumismo em alta; tecnologias que nos acomodam mais em uma vida sedentária; governo controlando as informações que chegam até a população; pessoas vazias, com vidas preenchidas por prazeres supérfluos como compras e TV. E os demais domos apresentam cada um uma característica diferente.
Um dos primeiros domos visitados é um onde o ultimo humano já morreu há muito tempo, mas as máquinas continuaram a trabalhar, como se não tivessem percebido nada (fico imaginando quem é que fazia os jornais que o robô entregador deixava nas casas pelas manhãs). Chegando no final do anime, Rondo está quase em uma guerra civil entre humanos e robôs, mas mostra um personagem que continua sua vida normal, carimbando documentos e digitando em sua máquina de escrever, apesar de sua escrivaninha estar vazia – não há maquina de escrever, nem documentos, nem mesmo carimbo. Esse domo representa a vida vazia das pessoas, mostra um lugar em que a população repete os mesmos erros de novo e de novo, sem nunca questionar o que faz, simplesmente vivendo sem pensar, sendo manipulados, pré-programados.
Essa característica também fica clara quando os personagens passam por um domo também em guerra entre humanos e robôs, mas as pessoas nem lembram mais o motivo de estarem lutando, de estarem vivendo. Nessa fase do anime um personagem descreve a situação da seguinte forma: “O mundo é um lugar caótico e, na sua fraqueza, eles não tinham nem sequer uma razão para morrer. É até impressionante eles acharem que tinham alguma razão para suas existências”. Que é a mesma coisa do domo do parágrafo anterior, e também é característica de Rondo e alegoria ao nosso mundo.
Se esses domos dos parágrafos anteriores tratam das vidas pré-programadas das pessoas, há um sobre a programação, ou seja, da influencia da mídia que faz a população achar que está vivendo bem e significativamente. Na Smile Land, o mundo é um enorme parque de diversões, cujo objetivo é fazer as pessoas sorrirem a vida toda. Nossa adorável robozinha Pino, que estrela esse episódio faz as pessoas perceberem que não estão vivendo, mas, sim, vestindo uma máscara e ignorando à si mesmas e as pessoas ao redor.
Pino, the girl with a smile, um robô infectado com o vírus cogito, adquiriu livre-arbítrio, e convivendo com pessoas e vendo diferentes emoções, ela despertou sentimentos verdadeiros. Pela sua experiência, ela se tornou capaz de sorrir, entristecer-se, amar, odiar, deferentemente das pessoas de Smile Land, com seus sorrisos momentâneos e sem felicidade verdadeira.
O anime, cheio de referencias à filosofia, segue como a Alegoria da Caverna, ou seja, os personagens tentam sair da caverna em busca da verdade, que, primeiramente, faz os olhos arderem, pois a luz do sol é muito forte para quem vive na escuridão. Talvez a verdade, uma vez descoberta, traga felicidade, talvez não. Um dos melhores episódios ilustra bem isso.
No capítulo (meditação, como são chamados em homenagem ao livro Meditações, de Descartes) 17, “Terra Incógnita”, os viajantes entram em uma caverna habitada por existências de forma antropomórfica. Esses habitantes não têm capacidades mentais como a dos humanos, mas os personagens suspeitam que eles eram pessoas que se abrigaram naquela caverna para sobreviver e, ao longo de milhões de anos, tornaram-se aquilo. Eles são extremamente fotossensíveis (até a mísera luz de lanterna os incomoda), e morrem se tentarem sair da caverna, seja por causa da luz, seja pela composição do ar na superfície deferente da composição de debaixo da terra.
A Alegoria retrata não só a situação das pessoas de Rondo, como também a dos protagonistas: as pessoas estão presas na caverna; eles saíram da caverna (Rondo) para descobrir a verdade; mas é perigoso sair de lá (a Terra ainda não está completamente regenerada, sem falar que sair é ilegal). Na história contada por Platão, os habitantes da caverna mataram aquele que saiu, julgando-o louco. Re-l, sabendo mais da Verdade do que os demais cidadãos (ela sabia da existência dos proxys e o que eles eram), também foi considerada louca.
Acho que já me estendi demais. Ainda tenho muito para falar desses muitos encontros, mas acho que consegui mostrar o que queria com essa “pequena” matéria. Na próxima parte, pretendo falar um pouco sobre os proxys, cogito, e os robôs.
Até a próxima.

Parabéns pelo texto. Esclarece bastante o anime! :D
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