
O que lhe vem à mente quando ouve a expressão “arte pela arte”? Quando meu professor de literatura me fez essa pergunta, pensei no quadrinhista inglês Allan Moore. Para quem não o conhece, tente se lembrar dos filmes “A Liga Extraordinária”, “Watchemen” ou “V de Vingança”. Todos ótimos filmes, que foram baseados nos quadrinhos criados e escritos por Moore.
Por que pensei nele? Considero Moore o que o quadrinhista norte-americano Scott McCloud chama de Formalista. Classificando as quatro culturas/valores dos artistas de quadrinhos (e também dos artistas em geral), McCloud assim descreveu os formalistas: “(...) (possuem/demonstram) devoção aos quadrinhos (à forma de arte escolhida) em si, à descoberta do que a forma quadrinhística (arte escolhida) pode fazer. A ansiedade de virar os quadrinhos (a arte) pelo avesso, de ponta-cabeça, num esforço de compreender mais plenamente seu potencial. A disposição de deixar que a arte e a história ocupem um papel secundário, se for preciso, na busca por novas idéias capazes de mudar os quadrinhos (a arte) para melhor.”
Allan Moore nunca deixou o roteiro de suas obras em segundo plano (suas histórias são de complexidade, profundidade e qualidade quase incomparáveis), mas sua característica mais marcante é a disposição “para virar os quadrinhos pelo avesso”: hQ é uma mídia muda, o que não o impede de escrever um capítulo que é guiado pelo som do piano ( como acontece em “V de Vingança”); imagine 22 paginas de quadrinhos, em que as informações da história, assim como falas de personagens, são dadas por propagandas de televisão (também em “V de Vingança”), ou uma pagina em que o enquadrinhamento é dado pelo mapa de uma cidade (Promethea)! Uma de suas obras mais importantes, “Watchmen”, ficou famosa por, entre (muitas) outras coisas, usar no mainstream elementos do underground.
Essa vontade de explorar a arte para saber o que ela é capaz de fazer que é “arte pela Arte”. Devo admitir que fiquei decepcionado quando meu professor de literatura explicou o Parnasianismo. Foi feito um ótimo trabalho, bonito, mas os ideais estavam errados, eles não fizeram arte pela arte, mas arte sobre arte. Não a exploraram, mas a limitaram em uma estrutura rígida; não quiseram saber do que a poesia era capaz, usaram-na para exaltar a escultura.
Algum tempo atrás vi o filme “Utena Revolutionary Girl” (ou “Adolescence of Utena”). Não foi um dos melhores filmes que já vi, não foi para a lista de favoritos nem de recomendados, mas foi uma das histórias mais subjetivas que pude conhecer até agora. Não tinha nenhuma mensagem explicita na obra, mas o objetivo era fazer um trabalho artístico, e foi bem sucedido. “Para mim, é fácil explicar essas imagens, mas não quero fazer isso. Se eu explicasse todos acreditariam que essa é a única interpretação possível. Quero que as pessoas saibam que há muitas possibilidades de interpretar o filme segundo suas próprias visões", explica o diretor. Filme vazio? Não, o objetivo era criar imagens artísticas, sem valor pratico, mas não sem importância.
Lembro-me também do texto “A dama no espelho: reflexo e reflexão”, de Virginia Woolf. A narradora do conto é uma visitante que contempla sua anfitriã pelo espelho do vestíbulo, e sua imaginação cria asas, tentado desvendar os segredos daquela mulher misteriosa que é a dona da casa. A fantasia chega ao fim quando a senhora chega, e a narradora é obrigada a olhar diretamente para ela, não mais pelo espelho, decepcionando-se quando percebe que não há mulher misteriosa alguma, apenas uma pessoa de idade.
O conto é o registro de uma simples fantasia, um pequeno exercício de imaginação. Fútil? O texto é ótimo, uma prática que talvez muitos tenham esquecido hoje em dia. E, se não esqueceram, não reconhecem mais sua importância.
“Escolhendo a Forma, ele (o artista) estaria se tornando um explorador. Sua meta: descobrir tudo sobre a forma artística. E sua arte não teria falta de idéias ou de propósito. Sua arte simplesmente se tornaria seu propósito e suas idéias surgiriam para lhe dar substancia. Os criadores que seguem por esse caminho são pioneiros e revolucionários – desejam sacudir as coisas, mudar a maneira das pessoas pensarem, questionar as leis fundamentais que governam sua arte. (em outras formas de arte: Stravinsky, Picasso, Virginia Woolf, Orson Welles, etc.)”( Desvendando os Quadrinhos, Scott McCloud, editora M. Books, pág. 179)
Isso sim, é arte pela Arte.

Minha crítica é contra os ideais do Parnasianismo que, na minha opinião, não foram seguidos. Mas não que o movimento seja de todo ruim. Aqui vai um exemplo de um maravilhoso poema parnasiano:
ResponderExcluirhttp://www.releituras.com/raicorreia_pombas.asp
Agradeçam à Beatriz pelo link.